quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Perdidos na Floresta

Era uma vez um grupo de teatro chamado Wankabuki...



Ele é grande. Segundo povos nativos, quando ele percebe a presença humana, fica de pé e alcança facilmente dois metros de altura. Seus pés seriam virados ao contrário, suas mãos possuiriam longas garras e a criatura evitaria a água, tendo uma pele semelhante à de um jacaré. A coisa também possui um cheiro horrível semelhante ao de um gambá. Esse mau cheiro serve para a presa ficar tonta. Para pegar com facilidade a caça sua boca se estende do peito até a barriga. Se você mora na região amazônica já sabe de quem estamos falando. Caso não seja daqui também não precisa fazer esforço para imaginar, afinal, durante dois anos este animal lendário temido pelos índios e ribeirinhos, chamado Mapinguari, foi o tema de uma das peças teatrais mais famosas já apresentadas pelo Grupo de Teatro Wankabuki.
A criatura amazônica que ganhou vida na atuação do Wankabuki faz parte da peça “A Lenda da Ecologia”, escrita por Osvaldo Gomes. Com mais de oito anos levando aos palcos de Vilhena e região as mais divertidas e elaboradas peças do folclore nativo, o grupo Wankabuki só tem a comemorar. Este ano, a gangue da quinta arte liderada pela atriz Valdete Sousa foi selecionada pelo edital de patrocínio do Banco da Amazônia para dar vida ao projeto “Invadindo a Praça”, que vai levar a magia do teatro para todas as praças de Vilhena até o mês de novembro. Tanto talento não poderia passar despercebido. Vamos conhecer um pouco mais deste grupo de teatro que proporciona verdadeiras aventuras na Amazônia.
O Wankabuki, que agora se tornou Associação de Teatro e Educação Wankabuki, tem como presidente a atriz Valdete Sousa e conta atualmente com oito integrantes que vão desde artistas a auxiliares de produção. O grupo ganhou forma nos corredores da Universidade Federal de Rondônia (Unir), campus de Vilhena, em 2003 e nunca mais parou. Membros entraram e saíram, mas o espírito de perseverança continua o mesmo da formação original. A valorização da cultura local é o que diferencia o Wankabuki... (aliás, você sabe o que significa esta palavra estranha? Pois bem, Wankabuki quer dizer... não quer dizer nada. Segundo uma das fundadoras do grupo, Nubia Rodrigues, o nome na verdade se trata de um erro de pronuncia surgido durante uma conversa informal sobre teatro japonês onde um dos presentes entendeu um nome errado e disse: “Wankabuki”?, É isso!) ... Recapitulando. A valorização da cultura local é o que diferencia o Wankabuki dos demais grupos de teatro da cidade.
A opção por textos originais ou adaptações com liberdade artística dos autores transformam as peças teatrais do grupo em verdadeiros espetáculos de conscientização e esperança. Segundo Valdete, a mensagem de preservação do ecossistema sempre está presente nas peças do Wankabuki, seja pelo tema em si ou pelo que esta ao redor no palco. Sim, tudo é feito com material reciclado! “Nossas roupas, acessórios, cenário e mais recentemente os fantoches usados na fábula ‘A Raposa e a Onça’, de minha autoria, são feitos de materiais que seriam jogados fora”, revela.
Mas, em se tratando de floresta amazônica o grupo vem apresentando com grande êxito a peça infantil “Perdidos na Floresta”, com texto de Antero de Sales, que aborda as consequências do desmatamento e da exploração ilegal de recursos naturais. “Perdidos na Floresta” conta a história de um casal de amigos que se perdem na floresta, conhecem um Bruxo, que representa o lado mal e quer destruir toda aquele ecossistema, e são salvos por animais e personagens folclóricos que vivem na mata, e representam o bem. Com um enredo divertido e hora assustador, a peça chama a atenção das crianças para as questões ambientais. “É uma maneira de implantar a ideia de preservação desde cedo, quando somos crianças, fase da vida em que estamos adquirindo noções sobre nós mesmos e o que nos cerca”, diz Valdete.
O conhecimento das lendas da região, e quando nos referimos a região estamos falando do Cone Sul do Estado de Rondônia, é um dos anseios de Valdete, que pretende montar um espetáculo com todas as lendas que pairam no imaginário popular dos rondonienses. “Pimenteiras do Oeste tem histórias lindas e de seres fantásticos que os moradores locais contam, como a do violeiro com a vela na mão que aparece na mata. Vilhena tem seus próprios contos que não existem em nenhum outro lugar. Quero reunir todos e montar o espetáculo algum dia”, revela.


Saindo da garagem

 Jovens se organizam e resgatam o bom e velho rock'n roll
      Enquanto o sertanejo universitário e outros estilos dominam as paradas de sucesso, algumas bandas remam contra a maré e resgatam o rock na cidade. Pessoas de idades e trajetórias diferentes compartilham do mesmo som e se organizam para disseminar em Vilhena, o estilo musical que influenciou a linguagem, a moda, as atitudes e modos de vida no mundo todo.
O rock and roll surgiu nos Estados Unidos na década de 50, oriundo, em sua maioria, de gêneros musicais afro-americanos. O estilo logo se espalhou por dezenas de países, ganhando características próprias da cultura dos povos que o adotavam.
Em Vilhena não é diferente. Dezenas de pessoas se juntam para tocar e cantar os sucessos do passado e do presente do rock, vivendo alegrias e enfrentando dificuldades para disseminar o estilo musical no Portal da Amazônia [como é conhecida o município, por ser considerado a entrada da Amazônia].
O músico Márcio Guilhermon é um exemplo desses jovens que lutam contra as adversidades para levar em frente o rock. O jovem conta que preza por compor suas músicas e que não gosta de fazer cover. Influenciado por bandas como Metálica e Raimundos, Marcio une a letras de protesto com melodias fortes. Apresentando-se em escolas e festivais independentes de música, ele conquista a todos com sorriso cativante e sonha ganhar os palcos de todo o Brasil cantando suas músicas que já fazem sucesso em Rondônia.  
Muitas bandas se destacam em Vilhena. Jovens se organizam, saem das garagens e resgatam o bom e velho rock'n roll, mostrando assim, que é possível fazer rock na Amazônia.
Sub Pop 
A banda Sub Pop surgiu em 2006, idealizada por Derek Ito, Camila Schmitt e Rogério Schmitt. O nome foi criado pelos integrantes e se refere a algo por baixo do pop, bem como na estética das palavras.
Sub Pop é formada por Derek Ito (vocal e guitarra), Bruno Vanzin (piano e teclado), Gustavo Closs (saxofone), Rogério Schmitt (bateria) e Jamir Dos Santos Junior (baixo).
Bandas como Los Hermanos, Vanguart, Red Hot Chili Peppers, Silverchair, The Strokes, mais nomes da MPB e da música clássica, são as maiores influências do grupo, que já tem 8 músicas autorais.
Os componentes da banda ressaltam que o espaço para divulgação do trabalho da banda ainda é pequeno na cidade e que o apoio que recebem, vem, em geral,  da família e dos amigos. Contudo, querem continuar, pois gostam do que fazem e pretendem gravar um CD ainda este ano, além da pretensão de se apresentarem em outras cidades.
Besouro Suco
A banda Besouro Suco é de Colorado do Oeste, mas se apresenta com frequência em Vilhena. Ela foi criada em 2009 pelos estudantes Sandro de Melo Vieira e William Lazaro.
Sandro, William e Jeferson Lazaro são os integrantes fixos da banda. Os demais são convidados para algumas apresentações. O nome da banda foi pensado por William, inspirado num personagem do filme americano Beetlejuice, de 1988.
Sandro, que mora em Vilhena atualmente, conta que a banda não costuma ensaiar com frequência, mas conversam por redes sociais e nos dias de apresentações ocorre tudo como o combinado.
As principais canções interpretadas pela banda são de Roberto Carlos, Los Hermanos, Tim Maia, entre outros. Mas o grupo está em processo de criação, já com cinco músicas próprias.
Sandro conta que a distância entre os integrantes, espaço para tocar e falta de apoio são as maiores dificuldades da banda. Porém, a perspectiva é continuar tocando, compor, ensaiar mais e lançar o trabalho na internet.
Mini Remp
Curtindo o mesmo som, a banda Mini Remp é formada por cinco adolescentes com idade inferior há 21 anos.
A banda também começou a se apresentar no ano passado, por ocasião de um festival de música que aconteceu na cidade. Os garotos passaram da primeira fase do concurso, mas o estilo sertanejo venceu ao final. Mas, dezenas de pessoas gostaram do som da banda e por isso eles foram convidados para abrir o evento em outro dia de apresentações.
Contudo, a banda já está na quarta formação, isso porque alguns integrantes não tinham tempo devido a outras atividades e até porque  não acreditaram no futuro do grupo.
Porém, os meninos da atual formação asseguram que estão confiantes no futuro da banda e pretendem crescer, sem desviar do estilo musical da Mini Remp.
Os integrantes da banda disseram que enfrentam dificuldades, como carência de apoio da prefeitura e falta de alguns instrumentos, que ainda não foram adquiridos, por isso alugam o que acaba sendo oneroso para o grupo.
Mini Remp é composta por Marlon Henrique Kempner (baixo), Maicon Douglas Souza Ferreira (guitarra), Tiago Poquivi (guitarra e vocal de apoio), Diego Campos Evangelista (vocal) e Luiz Henrique de Oliveira (bateria).
The Blank‏
A terceira e atual formação da The Blank é composta por adolescentes menores de 18 anos, mas com a mesma vontade de outras bandas: tocar rock.

The Blank surgiu em agosto do ano passado, pelas mãos de Thalys Guarnieri, Danyel Rover e Vinícius Dallazem, que tinham em comum o desejo de montar uma banda.

As principais influências do grupo são bandas indies, inglesas e americanas como, Arctic Monkeys, The Strokes, Franz Ferdinand e Rooney.

Os integrantes da The Blank revelam que enfrentam dificuldades para mostrar o trabalho, devido a ausência de festivais e lugares para tocarem, pois o público estaria mais interessado em outros estilos musicais, como o sertanejo.

The Blank é constituída por Thalys Guarnieri (vocal), Vinícius Dallazem ( bateria/vocal de apoio), Danyel Rover ( guitarra e teclado), Igor Rockenbach (baixo) e Niccolo Bayerl ( guitarra).

Festival Grito Rock
O evento começou em Cuiabá, no ano de 2002 e com o tempo, sabendo da existência de outras festas durante o período de Carnaval no país, foi proposto pela capital mato-grossense a criação de uma grande festa nacional, utilizando o mesmo nome “Grito Rock”.
A festa tem a proposta de dar opção de lazer e cultura, para quem não curte a programação tradicional do Carnaval. Ademais, o Grito Rock se tornou um festival integrado que em 2011 aconteceu no Brasil, Argentina, Uruguai e até nos Estados Unidos.
Em Vilhena, o Grito Rcok aconteceu em 2007, na Praça Nossa Senhora Aparecida, em 2010 no Rotary Clube e neste ano, no espaço JK, organizados pelo Coletivo Vilhena. Em 2008 e 2009 o Grito Rock não aconteceu por falta de patrocínios.
Segundo o empresário João Carlos Regert Neto, componente do Coletivo Vilhena, neste ano nove bandas participaram do Grito Rock e fizeram ótimas apresentações.
João enfatiza que o rock é música de massa e não vai perder estes status, mas afirma que existam praças, escolas e casas de shows para apresentações das bandas na cidade.  “Vilhena tem público para este estilo, pois possui gente de todos os cantos do país, principalmente jovens que querem ouvir rock”, destaca.
Mas, o empresário também concorda que os maiores desafios para se fazer rock no interior do estado, são os locais de ensaios, reconhecimento e melhores oportunidades.


Vida Ribeirinha: Pescarias, muitos causos e encontros com a vida selvagem

Moradores da floresta amazônica vivem em harmonia com a fauna e flora

Em um local onde o homem e a natureza convivem em harmonia, onde o tempo demora a passar, e as pessoas contam causos nas tardes quentes na beira do rio, pescando o precioso alimento, famílias vivem da forma simples cultivando a tradição da vida calma ribeirinha. Assim é a vida dos ribeirinhos de um dos mais importantes rios de Rondônia, que faz divisa entre Brasil e a Bolívia: o Rio Guaporé. 
A sobrevivência desse povo guerreiro é garantida pela agricultura de subsistência, pesca e caça. Alguns chegam a cultivar pequenas produções de hortaliças para a venda, mas o sustento da família vem mesmo  da pesca no Rio Guaporé. “É uma vida calma, a gente não precisa muito para sobreviver, eu mesmo criei meus filhos com o que consegui como pescador”, diz Hélio Ribeiro.
O pescador Osvaldo Laurindo, conta que as águas do Rio Guaporé são ricas em peixes. “Aqui, com o rio alto, dá para pescar pintado, jatuarana, apapá, matrinxã, pirarara, jundiá, pirapitinga, tambaqui e cachorra. Já com o rio baixo, a gente pesca peixes mais valentes como o tucunaré e o pacu-caranha, além dos outros”, explica o experiente pescador que revela que há trinta anos se dedica à pescaria. “Aprendi com meu pai minha profissão, e tenho orgulho dela. Sou pescador com carteirinha e tudo. Criei meus filhos, tirei o sustento da minha família, com o peixe do Rio Guaporé. Agora ajudo a criar meus netos”, revela orgulhoso o pescador que não pensa em se aposentar, enquanto prepara o pequeno barco para iniciar a pescaria. Osvaldo explica que quando sai para pescar passa entre 20 e 40 dias dentro do rio, mas quando volta traz não apenas saudade da família, mas muitos peixes. “Mas tudo dentro da lei. Só pesco peixe no tamanhão e no período certo, pois se eles se acabarem como vamos nos sustentar? questiona o pescador.
Já o pescador José do Santos, afirma que para viver na floresta tem que ser valente. “Aqui a gente tem que enfrentar todos os perigos, sozinhos, não temos hospitais. Quando temos um problema procuramos alguma benzedeira, e aí a gente toma um remédio feito da própria floresta mesmo, mas aqui quase ninguém fica doente. Acho que é porque todo mundo se alimenta melhor, o peixe com farinha faz milagre”, brinca o pescador.   
Para matar a fome, os ribeirinhos comem peixe e farinha. “Não tem uma família que não sente em uma mesa que não tenha um pouco de farinha para a mistura da comida, né? É importante, porque às vezes não tem outras coisas. A farinha serve para a mistura”, explica a ribeirinha Maria Aparecida Souza, mãe de três filhos, enquanto serve peixe com farinha para seus filhos.
A canoa é dos grandes meio de transportes para esses ribeirinhos, mas muitos também tem barcos que navegam dia e noite nas águas do Rio Guaporé. Aos 36 anos de idade, Sebastião Nascimento Brito navega desde menino pelos rios da Amazônia, numa dura rotina de pescador. Ele conhece muito bem os perigos escondidos ao longo dos rios, como as “pororocas” [fortes maresias, capazes de levar uma embarcação a pique] ou bancos de areia. “É uma rotina muito dura. É uma vida trabalhosa, mas já estamos acostumados, mesmo quando ‘tem’ chuvas fortes ou marés lançantes”, conta o pescador. Na companhia da esposa Lucia Brito, e dos quatro filhos, Brito sai para pescar no Rio Guaporé. “Minha família toda mora em Pimenteiras do Oeste, às margens do Rio Guaporé, incluindo meu pai e minha mãe. Eles nunca falaram em sair de lá para morar em uma cidade maior nem eu penso nisso. Aqui a gente tem tudo que precisa, somos felizes”, conta.
Mesmo com semblantes cansados do trabalho, mas sem deixar de sorrir, os moradores dessas regiões, que parecem ter parado no tempo, buscam dias melhores. Mas sem deixar de cantar, dançar e se divertir. E assim, a vida dos ribeirinhos segue o curso do rio. Nascendo a cada estação. O verde. A vida. Fauna e flora, o homem em harmonia.  E assim, a vida à margem do rio continua. Moradores da floresta amazônica, na fronteira entre Brasil e Bolívia. Pescarias, muitos causos e encontros com a vida selvagem.

  










Que folia é essa?

Quando ouço uma batida de tambor, vozes melancólicas entoadas durante os dias natalinos, já sei o que está acontecendo: é a Folia percorrendo as ruas da cidade. Viva Santos Reis. Viva!!!


O
s rojões pipocam no céu anunciando que logo mais uma festa vai acontecer. Nas redondezas as pessoas deixam suas residências em trajes festivos. Taramelas vedam os portões para os cachorros não seguirem os donos. Alguns minutos antes, um chuvisco ameaça a continuidade do evento. Chuvisco pode tornar-se chuva forte. E de tomar chuvarada na cabeça o pessoal que a acompanha Zezinho já está cansado. A isso se somam as intermináveis horas percorrendo as ruas da cidade, tanto no perímetro urbano quanto na zona rural, amassando barro, escorregando aqui, ali, desviando de uma possa de lama e quase sempre tendo que correr de uma garoa marota. Mas os festejos estam chegando ao fim. De longe se escuta ora um apito, ora uma batida de caixa. O que é isso? Aos poucos fica audível também o som de vozes, predominantemente masculinas, melancólicas.
Nós viemos com a notícia,
Nós viemos com a notícia
Que aqui tinha morador,
Que aqui tinha morador oiaaaaa
Os últimos versos são entoados com uma agudeza que chega a dar um aperto no coração. Em alguns momentos a letra da cantiga se torna inaudível, devido a profusão dos instrumentos musicais e vozes. Sempre presente, o ribombar da caixa faz o estômago estremecer. Que folia é essa que domina as redondezas, que motiva as pessoas a saírem de suas casas em uma manhã de quinta-feira? Seguindo a multidão chega-se à Igreja de Santos Reis. Está explicado. Seis de janeiro, para os católicos uma das datas mais importantes do calendário de comemorações: o dia em que os Reis Magos do Oriente visitaram o Menino Jesus, ofertando-lhe valiosos presentes. Ouro, incenso e mirra, esses foram as oferendas dedicadas a Cristo Menino, por Gaspar, Melchior e Baltasar. Para relembrar e homenagear a data a Companhia de Santos Reis, liderada pelo embaixador José Pereira Otoni, popularmente conhecido como Zezinho, sai às ruas de Alta Floresta D’Oeste, interior do Estado de Rondônia, entre os dias 22 de dezembro e 6 de janeiro, visitando as casas das famílias que desejam receber a benção dos três reis magos em suas habitações.
A toada ganha força. A procissão vai se aproximando. A vinte metros da Igreja Santos Reis, situada no bairro Cidade Alta, a Folia de Reis vai chegando ao seu destino final. Após quinze dias de uma intensa maratona cancioneira, os integrantes da Companhia de Santos Reis, enfim poderão concluir o rito que realizam a quase trinta anos no município de Alta Floresta D’Oeste, distante aproximadamente 500 quilômetros da capital Porto Velho. Muitas pessoas esperam do lado de fora do templo, outras tantas já ocupam os bancos internos, onde se abanam para espantar o calor de quase 30°. À frente do cortejo religioso está a Bandeira que representa os Três Reis Magos. Ela é empunhada por Luciana, filha de Zezinho. A bandeira é o principal símbolo desse universo seresteiro, e por isso lhe é dedicada tanta atenção. “Na bandeira nós temos os Três Reis do Oriente, tem São José, a Virgem Maria e o Menino Jesus. Ela representa o nascimento que está todinho na bandeira, e nós chega com essa bandeira nas casas dos moradores e eles recebem essa bandeira de Três Reis muito bem”, enfatiza Zezinho.
Recebeu nossa bandeira
Recebeu nossa bandeira
Com prazer e alegria,
Com prazer e alegria, oiaaaaa
                Na entrada da Igreja, três portais feitos com folhas de coqueiro, adornados com correntes de papel crepom, impedem parcialmente a passagem dos fiéis para a igreja pelo portão central. Faz parte da cerimônia, as pessoas mais velhas respeitam, as crianças também, mas essa últimas exprimem nos olhos uma tremenda vontade de puxar aquelas frágeis barreiras feitas de papel. A procissão pára em frente ao primeiro portal. Foguetes são lançados para anunciar a chegada da Folia em seu destino final. A estrela de isopor, encapada com papel laminado amarelo ouro, representa a Estrela Guia, àquela que orientou a travessia dos Três Reis em busca do local em que havia nascido o Menino Salvador.

                Meu interesse pela Folia de Reis realizada em minha cidade natal já é antigo. Após cursar Jornalismo na Universidade Federal de Rondônia, a vontade de conhecer um pouco mais dessa tradição só aumentou. Os batuques, os apitos e o coro afinado sempre chamaram minha atenção, assim como as roupas que os foliões utilizavam. Achava muito mais colorido o período natalino em minha cidade do que em outras por onde passei. Manifestei esse desejo de conhecer a fundo essa cultura religiosa e popular para a minha mãe, também admiradora das toadas natalinas. Ela me informou que um conhecido fazia parte da Companhia de Santos Reis.  Já passava das seis da tarde, do dia 26 de dezembro de 2010, um domingo, quando mamãe me convidou para ir até a casa de Seu Josias.
                Não era muito longe a residência, ao passo que em menos de dez minutos havíamos chegado ao local. Batemos palmas e um cachorro estridente apareceu para dar as boas vindas. Chamamos por Josias e eis que um senhor negro, alto, com cabelos e barba branca apareceu para nos atender. Com um vozeirão, que poderia muito bem estar apresentando um programa radiofônico, ele nos cumprimentou e convidou-nos a entrar em seu quintal. Dirigimo-nos até os fundos da casa, onde havia uma área de serviço. Acomodamo-nos e pedimos a Josias que falasse um pouco sobre a Folia de Reis em Alta Floresta D’Oeste. Ele explicou que nessa edição não estava participando da Folia por estar trabalhando, mas nem por isso deixou de nos ajudar. Pegou o telefone celular e pediu para que eu procurasse o número de Zezinho. Achei, apertei o botão para iniciar a chamada e passei o telefone para Josias.
Através da ligação ficamos sabendo que a Companhia de Santos Reis estava visitando as casas da zona rural e que estariam próximo à minha casa na quarta-feira, no dia 29 de dezembro. Seu Josias informou Zezinho sobre mim e sobre a entrevista que gostaria de realizar com o grupo. A resposta foi positiva, bastando apenas procurá-los pela redondeza no dia informado. Isso não seria difícil, pois o som da caixa era inconfundível. Quando ouvisse, com certeza estaria à procura dos foliões.
O relógio marca oito e meia da manhã.  Minha mãe bate na porta informando algo que eu já sei. Eles estão por ali, em alguma rua próxima da minha casa. Levanto, escovo os dentes, tomo um café apressadamente, troco de roupa e saio à procura dos meus entrevistados.
Não demora muito para eu saber que eles estão na rua de baixo. Estão bem perto da minha casa. Vou até eles. Intercepto-os saindo de uma residência e já se preparando para entrar em outra. Apresento-me, digo que sou filho da professora Marilene e a maioria parece conhecê-la. Faço a proposta de entrevista, ao que eles concordam. Fica decidido que o nosso bate-papo irá acontecer na casa da minha mãe, onde eles também irão tocar, cantar e representar.
Eles me convidam para a próxima apresentação. Aceito e vou com eles até a casa de Seu Otávio. Abrindo o cortejo os dois Bastiões, também conhecidos como palhaços, vão escudando a Companhia de Santos Reis, caracterizados com vestimentas coloridas, onde predominam as cores primárias: azul, vermelho e amarelo. Uma máscara com longos bigodes e uma espada feita de madeira completam a fantasia. São eles que, primeiramente conversam com o dono da casa, pedindo se ele aceita a visita da bandeira de Santos Reis. “Somos nós que defendemos os caminhos que eles vão passar. Nós somos os soldados e vamos até as casas e pedimos se as pessoas aceitam ou não aceitam a visita de Santos Reis. Se as pessoas aceitam, a gente entra e canta, se o pessoal não aceita a cantoria que representa a comunidade de Santos Reis, a gente segue adiante, mas também convida de coração para participar da Festa de Santos Reis”, explica Sandoval Pereira Otoni, um dos bastiões.
_Quero ver se vocês sabem cantar, por que eu já fui folião – responde o senhor sem camisa, com uma calça social gasta, nas mãos a bandeira de Santos Reis, vermelha, cheia de laços e flores, além de correntes com pequenos sinos. Também há fotos de outros integrantes da Companhia de Santos Reis e gravuras da Sagrada Família.
Com a resposta afirmativa do ancião, os foliões vão entrando e ocupando lugares para começarem as toadas. Ao dedilhar do violão de Zezinho, uma harmoniosa melodia começa a dominar o ambiente. No centro da roda que se formou para a cantoria, a esposa de Seu Otávio segura a bandeira com delicadeza. Depois de entoado o canto principal, o canto de agradecimento pela doação para a festa a ser realizada no dia 6 de janeiro, uma café é oferecido aos foliões. Enquanto os membros degustam a bebida fumegante, seu Otávio indaga:
_Os cantos daqui é tudo diferente de Minas? Porque?
_Por que aqui é Rondônia – responde enfático Zezinho.
Mais tarde Zezinho me contaria que as toadas cantadas pela Companhia de Santos Reis tem inspiração nas toadas mineiras, paulistas, baianas e cariocas.
_Quando os foliões vai sair né, eles falam:” Santos Reis tá dispidindo, com reinado pelas fitas, sodade de quem vai e sodade de quem fica – relembra Seu Otávio que se empolga e fala outros versos que entoava na época em que era folião em Minas Gerais.
_ Vinte e cinco de dezembro não se deita em colchão, se orar a dona da casa põe a mão, vinte e cinco de dezembro não se deita em colchão, Jesus Cristo nasceu nas painhas do chão – relembra o ancião meio em dúvida quanto ao último verso da toada.
_Eu cantei muita folia, mas nós andava só de noite, nós andava nas linhas.
_O senhor não andava de dia não patrão? – pergunta um dos bastiões – Com medo da puliça?
_É por que diz que Santos Reis é criminoso né? Então não pode andar de dia. Pros antigos era deste tipo né?
_Quem é que recebe a oferta? É ela que recebe? – pergunta o senhor, ao que uma garota negra , de olhos expressivos chega com um caderno.
_Como é nome do senhor?
_Otávio Paulo de Oliveira – após informar o nome o ancião dá algumas moedas para a menina e direciona a conversa para Zezinho.
_Eu já cantei muita Folia. Eu cantava Folia mais um velho. Aquele velho era bom, tinha vez que ele roucava e não aguentava cantar, então eu já tava treinado pra puxar na frente. Só que nós fazia assim, nós fazia a fila assim, e o requinteiro [responsável pelas notas mais agudas, e na minha opinião, melancólicas] fazia a requinta do lado de cá e o outro requinteiro fazia do outro lado. Cada qual tinha o seu lado. Quando eu comecei a entrar na Folia, comecei a cantar, ajudar eles, e tinha vez quando faltava requinta de um lado eu fazia do outro lado. Mas as coisas vai mudando, em cada Estado tem um tipo.
Mais um pouco de prosa entre os donos da casa e os foliões e já é hora de partir. O tempo ameaça chuva e a Companhia ainda tem muitas casas para visitar. Uma, duas e enfim, a minha casa. Corro para lá e aviso a minha mãe que o pessoal está chegando. As batidas da caixa, juntamente com o apito se aproximam. Na área de casa, mamãe e eu avistamos os membros da Folia de Reis vestidos com camisetas amarelas “A cor das roupas é pra identificar os foliões. Por que nós já chegamos em lugares que só entrava nas casas aqueles que estavam uniformizados,  por que o dono da casa só aceitava os foliões, as pessoas com fardamento assim [indica a própria camisa amarela]. E é uma maneira mais fácil de identificar o pessoal da Folia de Santos Reis”, ressaltou Zezinho em conversa  posterior.
Alguns trazem na cabeça um chapéu ou boné com uma estrela, que mais tarde saberia que, simbolizavam os Três Reis. “Eu e esses que tão com os bonés na cabeça significa os reis, por que os reis magos têm as coroinhas na cabeça”, explica Zezinho. Os foliões têm dificuldade de chegar até o portão da minha casa devido à grande quantidade de lama no caminho. No portão um dos Bastiões indaga:
_Quer que a gente aqui fora ou aí dentro?
_Aqui dentro, é claro! – responde com satisfação mamãe.
_Eitaaa! Pega a nossa bandeira madrinha? – diz o Bastião barbado indicando a Bandeira que está nas mãos de Maria de Lourdes Pereira da Silva, esposa de Zezinho e também tesoureira da Companhia. Maria estende com cuidado a Bandeira enfeitada para minha mãe que a segura do lado avesso.
_A madrinha já preparou o realzão pra fazer sua oferta madrinha? – pergunta o Bastião, fazendo referência às ofertas que são dadas aos foliões e que serão utilizadas para a compra de alimentos para a Festa de Santos Reis, no dia 6 de janeiro.
_Jáa!
_Vai sujar a área da senhora madrinha.
_Que nada! Pode entrar.
_Vira essa bandeira pra cá, assim ó – indica o outro Bastião, que tenta colocar de maneira correta a Bandeira nas mãos de minha mãe.
_Coloca a bandeira reta madrinha, reta madrinha! -  exclama o Bastião consertando o modo de segurar a bandeira.
_ É ele que não sabe explicar direito madrinha - a dona da casa dá um leve sorriso.
_Entra, vamos entrar pessoal, cabe todo mundo. Vamos chegando pra cá, pode chegar pra cá – diz mamãe, indicando a extensa área a ser ocupada, livre do intenso calor que começava a fazer lá fora.  
Os foliões se aglomeram em volta da Bandeira empunhada por mamãe e ao som do apito e do dedilhar da viola de Mestre Zezinho, uma profusão de instrumentos musicais começam a ecoar os seus sons, ora de modo caótico, ora de maneira harmoniosa. Pandeiro, triângulo,  viola, violão, e o som da caixa ao fundo dão o tom da seresta divina, por vezes inaudível, mas que comove quem escuta.
Recebeu nossa bandeira
Recebeu nossa bandeira
Com prazer e alegria,
Com prazer e alegria oiáaaaaaa

Santos Reis te abençoa
Santos Reis te abençoa
A senhora e a família
A senhora e a família oiáaaaaa
Após a canção de chegada, peço a todos que se acomodem nas cadeiras. Os foliões se ajeitam em seus lugares, em um misto de descanso e expectativa quanto ao que vou perguntar. Apresento-me mais uma vez, falo do meu interesse em registrar a importante manifestação cultural que a Folia de Reis representa para Alta Floresta e para Rondônia. As crianças olham curiosas para a câmera que está em uma das minhas mãos. Minha mãe traz café e água para os cancioneiros.
Começo perguntando quando a Companhia de Santos Reis (nome do grupo) começou a Folia no município. Zezinho, homem negro, de semblante simpático, porte ereto e pequeno bigode responde que o primeiro ano em que saiu para cantar de casa em casa foi em 1983, portanto, antes mesmo da emancipação político-administrativa da cidade, ocorrida no ano de 1986.
Mas a Folia já corria nas veias de Zezinho desde pequeno, quando morava em Minas Gerais, um dos estados brasileiros com grande número de grupos de Folias de Reis. “Eu comecei a andar com a Folia de Reis com sete anos de idade, hoje eu estou com 48 anos”, relembra. De lá para cá, migrou para o Paraná, onde viveu uma parte de sua infância e juventude, vindo a se instalar posteriormente em Rondônia, acompanhando a febre desenvolvimentista iniciada na década de 1970, que visava povoar a região Norte do Brasil.
A Folia de Reis é uma das festas religiosas populares mais antigas do Brasil. Ela chegou ao país com os portugueses, ainda no período de colonização. Essa manifestação cultural era realizada em toda a Península Ibérica, da qual Portugal e Espanha se destacavam. Os princípios básicos - a entoação de cantos de caráter religioso, danças e doação de ofertas por parte das famílias visitadas – foram mantidas ao desembarcar em solo tupiniquim. Ela teria surgido mais precisamente em 1534, e foi propagada pelos jesuítas como forma de catequizar indígenas e negros escravos.  Os contatos com os diferentes povos conferiram ao festejo variações, mas todas mantiveram o espírito de adoração à Sagrada Família e aos Três Reis Magos, que visitaram o Menino Jesus, ofertando-lhe valiosos presentes. Com o intenso fluxo migratório ocorrido ao longo dos séculos que sucederam o “descobrimento” do Brasil, a Folia de Reis foi sendo espalhada pelos estados, onde ganhava características próprias, sem perder os pilares que sustentam essa tradição.
                Durante os quinze  dias em que percorrem a cidade cantando as boas novas natalinas e a visita dos três reis magos, os foliões visitam em média 500 casas, tanto na zona rural quanto na urbana. “Teve ano de a gente andar mais de 650 casas nos 14, 15 dias de Folia. Daí teve ano que caiu pra 400. Em outros anos visitamos 500 casas. Então não tem quantia, depende muito. Não tem quantia não, vai depender do tempo. Quando chove muito, aí, diminui as visitas”, informou Zezinho.
_E vocês também vão pra zona rural? – pergunto.
_Nós estamos vindo da zona rural – responde Zezinho.
_Quando o Seu Josias ligou vocês estavam na 42 [uma das linhas rurais de Alta Floresta D’Oeste] né? – peço a confirmação.
_A gente tava lá. Daí nós viemos aqui pra cidade.
_Mas então vocês já tem um roteiro programado?
_Mais ou menos nós já temos o roteiro por onde a gente sempre passa, mas todo ano aumenta mais.
_E vocês avisam antes, ou vão de casa em casa? Como é que é?
_Uns a gente convida, os outros já é de tradição acompanhar a gente. Os outros, quando a gente está passando eles vem pedir a visita na casa. Nós não temos só um paradeiro.
_E aqui em Rondônia vocês têm contato com outras Folias de Reis?
_Temos sim.
_Então tem outros municípios que fazem também?
_Sim, mas aqui em Alta Floresta nós temos a igreja de Santos Reis. Em Santa Luzia tem uma Folia de Reis, em Rolim [de Moura] também tem.
_E nessas cidades não tem a comunidade de Santos Reis?
_Não. Só aqui em Alta Floresta que tem uma comunidade de Santos Reis. E nós através de vinte e tantos anos de jornada é que conseguimos construir a igreja.
A companhia também não tem um número fixo de participantes ativos, variando conforme a disponibilidade de cada um. “Hoje o número certo mesmo é doze, mas como nós temos a família que é grande nos estamos andando na faixa de uns quinze a dezoito companheiros”, conta Zezinho.
                Uma das características mais marcantes da Folia de Reis em Alta Floresta D’Oeste é a quantidade considerável de crianças que acompanham os festejos. Além dos filhos de Zezinho e Maria, outros meninos seguem os foliões em sua jornada cancioneira. Como forma de manter a tradição viva, o Mestre do grupo tratou de ensinar seus rebentos logo cedo a manusear os instrumentos musicais utilizados durante as visitas feitas nas casas. O pequeno Cristiano domina o cavaquinho como poucos de sua idade conseguiriam fazer. Já Luciana, um pouco mais velha que Cristiano, reveza entre o triângulo e a caixa, que emite um som parecido com o de um tambor.
                A Folia de Reis de Alta Floresta descende das primeiras folias realizadas no sudeste do Brasil. “Nós começamos em Minas Gerais. Há mais de quarenta anos atrás. A gente herdou dos avôs, dos bisavôs, essa foi a fundação. E isso foi passando de um para outro, de outro pra outro [dá um sorriso movimento colocando um braço a frente do outro para indicar uma sucessão de linhagem sanguínea], e assim nós estamos levando essa tradição, e mais companheiros, não só o pessoal dos Três Reis, mais outros companheiros que vêm dar uma força e  ainda tem as crianças” – explica metodicamente Sebastião Pereira Otoni, responsável pelo pandeiro.  
_E como é essa coisa de transmissão de pai pra filhos, qual é a geração que está cantando com vocês a Folia de Reis?- pergunto aos membros da Companhia.
 – Já é a segunda geração aqui em Rondônia. Agora a gente está ensinando as crianças menores – informa João de Araújo Lopes que se reveza entre pandeiro, caixa e também atua como requinteiro, ou seja, ele é um dos que dá as últimas notas de cada verso de forma mais aguda.  
_E eles gostam?
_Oh, demais. Tem a comadre, que chega nas casas e reza o terço com as crianças – João aponta para Maria, a tesoureira, que está sentada na mureta da área.
_Como vocês ensinam os rituais da Folia de Reis para as crianças? – pergunto para Maria.
 – Bom, lá em casa, a gente ensaia as crianças. Agora as crianças das pessoas que a gente passa nas casas aprendem com nós que passamos nas casas delas – explica a mulher.
_Nos finais de semana, esse aqui, aquele ali, aquele outro ali [diz apontando para uma série de crianças e adolescentes que estão no local da entrevista] vão aprendendo a tocar e sobre a importância disso – informa Sandoval, o Bastião barbudo.
_E os velhos vão [no sentido de morrer] e vamos deixando para a criançada. A gente tem que ensinar as crianças pra não acabar – conclui João, o Requinteiro.
                Ao terminar a entrevista, minha mãe faz a oferta para ajudar na festa. Ela informa seu nome à Maria, que anota tudo em um caderno. Para agradecer a oferta os foliões entoam mais uma canção.
Santos reis vinham passando
Santos reis vinham passando
E na sua casa chegou
E na sua casa chegou

Pra trazer vida e saúde
Pra trazer vida e saúde

Pro senhor e a família
 Pro senhor e a família, oiáaaaa.

Agora dona eu vou pedir uma o oferta pra bandeira,
Agora dona eu vou pedir uma oferta pra bandeira, oiáa.
Deus lhe pague a oferta dada de bom coração,
Deus lhe pague a oferta dada de bom coração, oiáa.
               
                Viva os três reis – puxa o Bastião barbado.
Vivaaaa
Viva o Menino Jesus,
Vivaaa
Viva a Virgem Maria,
Vivaaaa
Viva a dona da casa e toda a sua família,
Vivaaaa !  – exclamam todos os presentes.

Após as saudações os integrantes do grupo passam por mim e me cumprimentam com entusiasmo. Reforçam o convite para eu participar da festa no dia 6 de janeiro. Acenos de mãos de ambas as partes. Eles saem pela rua lamacenta com destino à próxima casa, onde um almoço apetitoso os espera.
                Finalmente o grande dia chega. É dia 6 de janeiro, Dia de Santos Reis. Depois de visitar mais de 500 casas a Companhia de Santos Reis encerrará mais uma maratona cancioneira religiosa. As vozes, depois de quinze dias de cantoria, ainda estão potentes, afinadas. O cansaço provocado pelo enfrentamento de sol e chuva, não abate os foliões. O descanso ficará para depois, pois agora devem realizar a melhor apresentação. A toada mais afinada deve brotar de suas gargantas e invadir o templo dedicado aos santos a quem aclamam. A igreja está lotada, colorida de gente.
                Mais foguetes são lançados a cada portal atravessado. As crianças disputam os pedaços de papel crepom. Enfim, os foliões chegam ao interior da igreja. A Estrela Guia, afixada em um fio, segue até a manjedoura, indicando o caminho a ser percorrido. A história bíblica é recontada.  À frente da procissão os Bastiões se ajoelham e seguem pelo corredor até o presépio instalado no lado esquerdo do altar. Os outros integrantes da Companhia de Santos Reis caminham lentamente entoando mais uma de suas canções, enquanto os últimos lugares disponíveis no interior da igreja são ocupados. Quando chegam ao presépio fazem reverências e continuam a toada até o seu final, marcado pelos agudos de três ou quatro foliões requinteiros.
                A missa, celebrada pelo padre estrageiro Ireneu Komlan, de Togo, África, é marcada por um discurso de amor ao próximo, de expurgação da escravidão do homem ao bens materiais e de reflexão. Posteriormente o sacerdote me explicaria a simbologia de cada presente ofertado a Jesus. “Cada um desses presentes têm um simbolismo. O ouro significa que eles reconhecem o reinado de Jesus. O incenso pra dizer que Jesus é Deus. E a mirra pra mostrar que Jesus também foi homem através do sofrimento de seu na cruz. Então esses três presentes têm bastante simbolismo para nós hoje. E foi dito que esses três reis magos têm nome de Gaspar, Melchior e Baltazar. A Bíblia não fala isso, mas segundo a tradição são esses três reis que saíram ao encontro do menino Jesus”, - explica Ireneu, com um leve sotaque francês.
                Em um determinado momento da celebração Zezinho é convocado ao altar para falar um pouco sobre as visitações. Diante de todos os presentes ele se emociona ao contar da sua quase desistência de cantar a Folia desse ano por causa de problemas de saúde e também por ainda estar abalado com a morte de uma tia que participava ativamente da Folia. Revela que por insistência do filho mais velho e de alguns amigos ele resolveu sair às ruas e renovar a tradição de levar a mensagem do nascimento de Jesus e da visitação dos Reis Magos para os lares altaflorestenses. Agradece o apoio de todos aqueles que lhe incentivaram e que doaram ofertas para a realização da festa que acontecerá após a celebração religiosa. Palmas ecoam pelo interior da igreja. Elas expressam o carinho que a comunidade tem para com o Mestre. Como a Estrela, ele guiou por mais um ano os foliões pelos obstáculos, superando as variações climáticas e o cansaço. Viva o embaixador. Vivaaa!
                Amém! Dizem todos, após o padre proferir a benção final. As pessoas se encaminham para o barracão onde está sendo serviço o almoço. Carne, pão, mandioca é o que consigo visualizar nos pratinhos descartáveis que passam ao meu redor. Enfim a comunhão. Todos parecem requisitar a atenção de Zezinho. É difícil conseguir um minuto a sós, então espero o momento em que o número de pessoas em sua volta diminui e vou ao seu encontro. Pergunto se tudo saiu como o planejado. Ele responde que sim, com um sorriso nos lábios. Aproveita para me mostrar um cartaz com fotos enviado por um dos moradores que recebeu a visita da Companhia de Santos Reis em sua casa. Ele se emociona mais uma vez. Indago se ele já está pensando na Folia do ano seguinte ao que de imediato ele responde:
                _É claro. A gente não pode deixar a tradição morrer.
                Ele volta para a companhia dos amigos,  que estão perto da churrasqueira. Os outros foliões passam por mim e me cumprimentam. Parecem meus conhecidos de vários anos. Parecem irmãos. E Talvez seja essa a grande mensagem que a Folia de Reis tenta passar. União.  
Santos Reis te abençoe pra que nunca falte o pão
Santos Reis te abençoe pra que nunca falte o pão, oiáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. 




Videos



Festas religiosas se tornaram tradição em quilombos rondonienses

Com simplicidade, quilombolas do Vale do Guaporé demonstram a grandeza das suas tradições culturais

É na simplicidade do falar, do viver, dos costumes e festejos que as comunidades quilombolas do Vale do Guaporé demonstram a grandeza das suas tradições culturais.  Pessoas simples, de corações humildes e felizes, que demonstram suas crenças nas festas religiosas.
Atualmente Rondônia possui seis comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares: Santo Antônio, Pedras Negras, Forte Príncipe da Beira, Santa Fé e Laranjeiras e a Comunidade Quilombola de Jesus, situada na beira do Rio São Miguel, acima dos territórios quilombolas de Santo Antônio e vizinho dos indígenas miquelenos e puroborá.
Os negros das comunidades Quilombolas do Vale do Guaporé têm origem em um grande contingente de populações negras que foram abandonadas no Vale do Guaporé, no século XIX. Vieram de Vila Bela de Santíssima Trindade, instalaram-se às margens do Rio Guaporé. Apesar de ainda terem muitas carências devido a um processo histórico, especialmente de infraestrutura, educação e saúde, eles não perdem a alegria de viver. Entre as tradições culturais das Comunidades estão as festas religiosas. Na Comunidade Quilombola de Jesus o destaque é a festa de Nossa Senhora da Conceição, em oito de dezembro, com participação de pessoas de todo o Vale e das cidades próximas. A festa inclui missa, muita comida, bebida e forró. É comemorado também o dia de Santa Rosa, em 30 de agosto, com jejum e penitências.
            A Festa do Divino Espírito Santo, que este ano aconteceu no mês de abril em Pimenteiras do Oeste, também é destaque na comunidade quilombola de Pedras Negras. A comemoração relembra a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Esta festa acontece todos os anos, como se fosse a primeira vez. Tamanha é a fé dos devotos congregados nesta festa que ela ganha destaque estadualmente. A festa é uma tradição centenária, uma das mais cultuadas, vêm do século XIX, precisamente 1894. Ainda hoje atrai devotos de vários pontos do Brasil e consegue congregar centenas de pessoas que não medem sacrifícios a fim de estarem presentes nesta celebração.
Segundo Isabel Mendes, presidente da Associação dos Quilombolas de Pimenteiras do Oeste, a Festa do Divino é de extrema importância, pois é uma forma dos quilombolas demonstrarem sua fé e também relembrar a peregrinação que fizeram até chegar ao Vale do Guaporé. 
Já o tio de Isabel, Nego Mendes, conta que se lembra de como seus pais participavam da festa da Festa do Divino Espírito Santo, no quilombo de Pedras Negras. Ele lembra que a festa tem uma importância impar.

A Festa do Divino Espírito Santo reúne famílias ribeirinhas bolivianas e brasileiras. A coroa foi trazida de Vila Bela Santíssima Trindade, no Estado do Mato Grosso, por uma família descendente de escravos para a Ilha das Flores, em Rondônia. A peregrinação das famílias ribeirinhas que moram às margens dos rios Mamoré e Guaporé, no qual fazem divisas com o Brasil e a Bolívia, são de Surpresa, Costa Marques, Pedras Negras, Rolim de Moura do Guaporé, Pimenteiras, Versalhes, Remanso e Piso Firme, sendo as três últimas na Bolívia. Os devotos vem passando por todas as comunidades, arrecadando todo tipo de doações, mas, principalmente a de alimentos, para a preparação da festa. A Romaria do Divino começou a caminhada pelo Vale do Guaporé há 155 anos, envolvendo ribeirinhos católicos que agradeciam as “graças” (milagres) alcançadas. Ora por terem uma cura de familiar doente, ora pela fartura de alimentos, geralmente, peixes e caças, além do sucesso nas vendas de produtos da floresta (essências, raízes, madeira, látex e outros).



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ipê vilhenense: as cores que encantam a cidade Clima da Amazônia

O ipê, árvore símbolo nacional, proporciona um colorido especial às ruas de Vilhena. As flores em tom amarelo bem forte, branco cor de neve e roxo vivo, cativam o olhar de todos 




           Talvez a correria do dia-a-dia, o stress e até mesmo por falta de tempo, você não tenha parado para admirá-la.

Você deve passar por ela todos os dias, e não a vê, mas ela está ali, humildemente resistindo à ação do homem, lutando bravamente contra as queimadas e derrubadas. Majestosamente ela solicita sua atenção, e porque não sua admiração. De quem estou falando? Da árvore símbolo do Brasil,  o Ipê.
As árvores ajudam a dar uma nova cara à paisagem urbanizada, e nada mais formoso do que essa faceta ser revestida de cores vivas e alegres, proporcionada pela floração dos Ipês. Em Vilhena podemos admirar estas lindas árvores em vários pontos. Todos param para fitar a exuberância dos Ipê floridos, que embelezam ainda mais a cidade “Clima da Amazônia”.
Sua floração ocorre antes do surgimento da nova folhagem sem data precisa, ocorrendo normalmente entre abril e setembro. Neste período dota-se de uma beleza inigualável traduzida pelos versos de Sílvio Ricciardi:

Ontem floriste como por encanto,
sintetizando toda a primavera;
mas tuas flores, frágeis, entretanto,
tiveram o esplendor de uma quimera.
Como num sonho, ou num conto de fada,
se transformando em nívea cascata,
tuas florzinhas, em sutil balada,
caíam como se chovesse prata…

Ao entrar em floração, o ipê perde totalmente as folhas e, como uma grande mancha de cor, impõe sua exuberância à paisagem. Conhecido em todo o Brasil, é a árvore nativa que representa a nacionalidade.
É a árvore brasileira mais conhecida, a mais cultivada e, sem dúvida nenhuma, a mais esplêndida. É na verdade um complexo de nove ou dez espécies com características mais ou menos semelhantes, com flores brancas, amarelas ou roxas. Não há região do país onde não exista pelo menos uma espécie dela.
No mundo, são 292 tonalidades catalogadas. Na verdade, as espécies não chegam a derivar, mas, sim, sua cor, que, em geral, são mais ou menos semelhantes umas às outras. O florescimento vivaz é seu traço mais marcante e o que a torna tão espetacular. Qualquer leigo tem curiosidade sobre seu nome ao contemplar a beleza de seu florescimento.
De acordo com o Engenheiro Florestal do Ibama de Vilhena, José Lauro Gonçalves, se não fosse pela ação do homem teríamos um privilégio ainda maior. É que há cerca de dez anos, a prefeitura da época plantou uma quantidade expressiva de Ipês, visando resplandecer o paisagismo da cidade, porém as pessoas não foram muito acolhedoras e com o crescimento assustador de Vilhena as árvores foram perdendo espaço para as construções. A maioria das que foram plantadas, dez anos atrás, hoje já não existem mais. “Do Ibama até à UNIR foram plantadas mudas de Ipê, porém a população destruiu a maioria das árvores”, relatou José Lauro.
As que resistiram a ação devastadora do homem concedem o privilégio de vê-las em sua floração, como é o caso da árvore plantada há vinte e dois anos na Escola Cecília Meireles, no bairro Bodanese. Lá ela é preservada, e toda vez que começa a florir dá um show de exuberância. Os funcionários da escola sempre procuram registrar esse momento, fotografando-a.
Em 1961, elegeram o ipê-amarelo, conhecido cientificamente por Tabebuia vellosoi, como a Flor Nacional. Existem pelo menos cinco espécies com formas arquiteturais muito diferentes entre si e cuja floração também diverge quanto à época de ocorrência e intensidade.
No inverno a falta de chuvas deixa as vegetações secas, amareladas, quase sem vida. O ipê, árvore nacional, promove um colorido especial nesta época, com flores de tom amarelo bem forte, branco cor de neve, roxo vivo e rosa chá.
Tudo isso nos leva à reflexão no meio de tanta sequidão: a maior dificuldade para a sobrevivência desses Ipês não é a falta de chuvas e sim as queimadas, muito comuns nesta época do ano.
Essa árvore que, mesmo na época de seca nos mostra o potencial da natureza, que é bela até em momentos caóticos, revela sua vontade e necessidade de sobreviver, mesmo com tantas ações prejudiciais contra ela. A ambição desmedida da humanidade tem deixado feridas profundas no nosso planeta, e que está pedindo socorro. Mas ainda há esperança, enquanto os ipês florirem há vida.